Sabe porque o carro está pesado? Por que você carrega o mundo nas costas.
Frank Slade – personagem que deu à Al Pacino seu primeiro e demorado Oscar – foi sem dúvidas um dos mais marcantes de sua carreira. Ele é um coronel cego, arrogante, prepotente e muito sarcástico. Ele é perito em descobrir os perfumes das mulheres somente sentindo o cheiro e a essência, não resiste em dar um belo de um elogio a qualquer rabo de saia, e pretende ir para Nova Iorque a fim de viver um inesquecível fim de semana. Charlie Simms (Chris O’Donnell), jovem de bem, de caráter e sonhador, é contratado para o acompanhar, mas o que ele não sabe é que o tenente pretende se suicidar.
Lendo este pequeno parágrafo acima, é de se imaginar as grandes lições de vida que percorrerão por este feeling good movie acima da média, refilmado do clássico italiano de 1974 dirigido por Dino Risi. Todos nós gostamos de um filme que nos emocione, não é verdade? Perfume de Mulher é um filme certeiro. Dirigido com bastante sensibilidade por Martin Brest, esta espécie de road movie é preenchido por momentos agradabilíssimos, antológicos até, executados por atuações sinceras, diálogos fortes e cenas que dificilmente sairão da cabeça, fazendo com que as longas 2h e meia passem voando. O vínculo entre os dois protagonistas estabelecido pela direção de Brest é o ponto chave para as belas mensagens da obra, sobre amizade principalmente. Essa relação entre Charlie e Slade é, sobretudo, a mais bela de todas. Há um momento de tensão na hora da execução do suicídio onde Slade descobre ter um amigo, que se importa com as mínimas coisas que ele fazia. Passagem belíssima.
Percebe-se o estado emocional de Slade logo em sua primeira aparição. Sentado, ele não é muito receptivo com Chris, que estava em busca do emprego, sua arrogância e sarcásmo assusta o rapaz. Mas ao olhar bem ao fundo de sua expressão, vê-se uma certa solidão, um vazio, um desprendimento à família ou à qualquer bem que ele poderia ter, se é que isso importava pra ele, principalmente quando contava com orgulho sobre sua passagem pela guerra. Ao desconfiar do suicídio, Charlie se vê na obrigação de fazer o novo amigo ter novamente a paixão pela vida, o que não será fácil. Nesse meio termo, Perfume de Mulher proporciona momentos belíssimos como a inesquessível cena do Tango, tensas como a reunião em família, onde vem à tona grande parte dessa desistência da vida, vibrantes como a da Ferrari, e extremamente emocionantes como a do suicídio.
Al Pacino já teve performances melhores. Talvez o maior problema sejam os momentos que soam superficiais, gritos e berros que saem sem necessidade, mesmo levando em consideração seu posto como Coronel, haviam momentos forçados demais. Digo isso mesmo sendo um dos maiores fãs do ator. Mas não resta dúvidas que Frank Slade é talvez seu grande personagem. Ele sentado naquele sofá em sua primeira aparição, colocando o rapaz pra correr com suas palavras ásperas e duras já foi o suficiente pra me conquistar. O que dizer quando ele solta um forçado e sarcástico “Há!” nas mais indevidas situações? Chris O’Donnell não teve um papel muito fácil, afinal contracenar com um Al Pacino grosso e arrogante é ainda mais difícil, mas o rapaz transborda simpatia, convence e entrega uma atuação bela e emocionante, do jeito que o filme precisava.
Brest consegue mesclar a tensão presente em toda a trama com momentos de pura descontração e diversão, mas exagera um pouco no final didático e súbito. O Diretor deveria escolher um outro modo de contar as subtramas que envolvia o colégio de Charlie. As lições de caráter e moral ficaram muito cafonas e o discurso final é cheio de sentimentalismo piegas, extremamente clichê, e desmorona o desfecho que só é salvo pelo último diálogo em que Slade elogia uma mulher e diz que sabe onde encontrá-la só de sentir a fragância de seu perfume.
Nota 6.5
por Andinhu S. de Souza































